Autor: Tânia Rampi

Documentário de 2014, de Maite Alberti – Chile – 1h09min

 

Um documentário que nos faz rir, chorar e refletir, sobre como envelhecer.

O mais interessante é prestar atenção na reflexão dessas senhoras que, uma vez por mês, religiosamente, há 60 anos, esse um grupo de velhas amigas se reencontra, sem se perder de vista desde o final da escola secundária, num colégio católico. O tempo, que inevitavelmente passa, e transformou suas fisionomias e histórias pessoais, parece infiltrar-se com delicadeza entre a passagem de xícaras de chá, pedaços de bolo e outros quitutes. Ainda que tenham vivido por tempos de duras transformações históricas e políticas no Chile, essas turbulências parecem nunca vir à mesa, ou abalar sua amizade. Suas conversas giram em torno do passado, mas também incorporam discussões eternas sobre a fidelidade dos homens e a mudança dos costumes.

A fotografia e o enredo do documentário é diferente do trivial, pois é como se houvesse uma câmera escondida, grava sem elas perceberem e os recortes sobre suas expressões enquanto outra fala são no mínimo engraçadas. Muitos temas modernos trazidos no momento do chá mas com a percepção e opiniões de quem viveu em outra época, como casamento, homossexualidade, noite de núpcias, relacionamento, traição, machismo e como lidam com a velhice e a morte.

O documentário vem em capítulos que começam com a foto delas a cada ano que passa. Logo a preparação dos encontros, cada vez em uma das casas, o making off do preparo dos bolos, tortas, sanduíches e mesas postas é de forma elegante e colorida, com louças clássicas de um chá da tarde. Logo no início do encontro, aparece o chá sendo preparado, em folhas soltas, saquinhos, e tem até a blooming tea flower em dos capítulos, o que é inusitado por ser tão especifica essa forma de servir, pois é uma flor costurada com chá que desabrocha ao ser infusionada. O chá normalmente parece ser o preto, com frutas, pois harmoniza com tantas tortas com frutas vermelhas e recheios, sempre tem sucos de frutas e os quitutes são esteticamente lindos de olhar e parecem deliciosos. Um chá inglês à moda “chilena”.

A fotografia é impecável nos detalhes. Ao final do encontro servem um licor alcoólico sempre. E para encerrar, há sempre uma nova sugestão de passeio aos arredores do Chile em grupo, então juntam um pouco de dinheiro cada uma para fechar o pacote.

Em cada novo encontro, há a ausência de alguma participante, ou porque faleceu ou por motivos de doença. Elas leem poesias, cartas amarelas de seus antigos amores, ou uma apresentação de flauta da filha de uma das senhoras que tem uma deficiência. Então, tudo tem um ritual.

O que agrada é a sinceridade, o humor, a transparência de uma falar a outra o que sente e o que pensa. A maioria viúvas já falam de como idealizar o marido e como não seria possível viver sem eles quando se foram, mas que depende de cada uma pela forma de enxergar a viuvez.

É fácil de chorar e de rir, pela originalidade das cenas e das personagens, talvez entender o quanto as amizades, que nem sempre as cultivamos como deveríamos fazem a diferença, já que no final, são elas que nos dão força sem nada nos exigir.

A mesa posta para o chá se torna o pano de fundo para trazer o quanto amizades nos fortalecem, até o momento da despedida.

 

Sobre o título: ” la once”- Curiosidade:

Os chilenos merendam às 11h? Não, eles certamente lancham no período da tarde, mas a expressão “la once” é um costume herdado de antigos operários.

Se alguém te convida para uma “la once” está te convidando para um drink. Os “onze ” em questão não são horas, senão as onze letras da palavra “aguardiente”, bebida que os chilenos levam para a pausa do trabalho. Um código prático para não ser pego no pulo.